Me lembrei de um conto de Rubem Alves que eu li numa edição da Bons Fluidos de alguns anos atrás e resolvi procurá-lo na minha pilha de revistas. Um conto muito legal, como todos que ele escreve e que poderia, ou melhor, poderá ser utilizado no trabalho do Sagrado Feminino que eu vou desenvolver a partir de janeiro.
Olhei a pilha de revistas numa gamela que tenho no canto da sala e pensei: “paciência, vamos procurar”, se bem que folhear essas revistas pra mim é na verdade um prazer, sempre acho algo que me interessa e que ainda não li. E foi logo na primeira revista, na segunda dedada solta nas páginas que vi uma foto pequena de uma mulher. Continuei folheando e resolvi voltar naquela página porque a foto da mulher me chamou a atenção e eu pensei já tê-la visto em algum filme antigo.
Fiquei boba quando vi que era Clarissa Pinkola Estés em uma entrevista sobre o livro Mulheres Que Correm com Lobos, e sobre o universo feminino. Livro que tenho dedicado leitura. Eram umas 4 páginas só falando do trabalho com grupo de mulheres. Em uma parte, quem escreveu o artigo comenta de sua experiência em um grupo e menciona um exemplo um tanto quanto curioso. Ela relata que uma empresária de 30 anos, muito bonita, inteligente e bem sucedida, expôs ao grupo a sua dificuldade em ter uma relação amorosa, isso porque, ela sentia que os homens têm medo de mulheres assim, que não precisam deles.
Putz!! Que mundo é esse!! E o pior é que é assim mesmo, uma amiga e eu já tínhamos comentado sobre isso. Mas onde está o novo mundo, com novas relações, onde pessoas inteiras que não dependem uma da outra, ficam juntas porque é ótimo estar perto e não porque tem simbiose de dependência? Nossa, tomara que antes da inversão de eixo planetário isso também se inverta !! rsrs
Bem, continuando minhas buscas, já na segunda revista encontro um conto que logo achei que fosse o que eu estava procurando. Porém, descobri que era continuação do outro. Daí, por sorte, logo lá pela sexta revista eu encontrei o que procurava.
Resumirei bem resumido os contos e sem tanta beleza na narração; e que me perdoe Rubem Alves pois escrevo com o que tenho na memória. Mas quem quiser, encontrará seus contos na Bons Fluidos ou em seus livros. Os contos são mais ou menos assim:
Uma menina tinha um lindo pássaro que ela mantinha solto. Ele saía para longas viagens e quando retornava trazia a beleza e as cores dos lugares visitados em suas penas: o branco da neve, o verde das florestas, o vermelho de lugares ensolarados… E voltava com muitas histórias para contar para a menina. Isso a enchia de alegria, pois ela ficava eufórica e cheia de saudades aguardando seu retorno. No entanto, um dia antes dele partir novamente, ela resolveu prendê-lo, para nunca mais sentir sua falta, pois ela amava-o demais e sua ausência era dolorida. Enquanto ele dormia, ela o colocou numa linda e cara gaiola de prata, digna de um pássaro encantado que se ama. Quando ele despertou, disse: “ô menina, porque você fez isso? Nosso amor perderá a beleza, minhas penas deixarão de ser belas, eu não terei mais histórias pra te contar, você não mais sentirá saudades minhas, perderá também a alegria e não mais se enfeitará toda noite na espera de que eu volte a qualquer momento”. A menina não acreditou que seria assim e manteve o pássaro preso. Até que com o passar do tempo tudo sucedeu como o pássaro havia dito. Então, mesmo triste, ela soltou o pássaro, que voou alegre para outras terras; e ela voltou a se enfeitar todas as noites, o coração voltou a sentir saudades e ela aguardava o retorno do pássaro a qualquer momento, com encantos para compartilharem.
No outro conto, um dia o pássaro percebe que há algo debaixo da blusa da menina e pergunta o que era aquilo. Ela levanta a blusa e mostra para ele dizendo: “São asas, estão nascendo asas em mim”. Então o pássaro viu que estavam nascendo asas de borboleta na menina. Passou um tempo, as asas da menina já estavam formadas e ela se transformou numa borboleta e quis voar. O pássaro ficou triste por deixar a menina voar para lugares desconhecidos. Ele queria estar por perto para protegê-la, ainda mais que asa de borboleta é muito frágil. No entanto, ele se lembrou de quando mesmo sofrendo, ela permitiu que ele voasse. Assim o pássaro, mesmo querendo beijá-la não beijou, apenas soprou suavemente suas asas e disse: “Voa minha linda borboleta, voa!” Foi aí que ele percebeu que também se modificara e já não era mais um pássaro encantado de penas coloridas e sim um menino que agora esperava a volta de sua borboleta encantada.
São lindos esses dois contos e me faz lembrar de algo que li a primeira vez numa pichação no muro do colégio onde eu estudava . Era assim: “Amo a liberdade, por isso deixo livre as coisas que amo. Se voltarem foi porque as conquistei. Se não voltarem, foi porque nunca as tive.”
Então… devo dizer: vamos voar e permitamos que o outro voe. Mesmo porque, já é velho o dito que liberdade não significa libertinagem. E a liberdade permitida está diretamente ligada à confiança conquistada.
Abaixo está o vídeo com a música Wichichayo do grupo peruano Amaru Pumac Cuntur (que tivemos a alegria de assistir a um show animadééérrimo em Cuzco). E aí a música diz: “ VOLAMOS COMO EL ÁGUILA, VOLAMOS COMO EL CÓNDOR, VOLAMOS MUY ALTO”…
Uuuiuui!! Pssssssiiiuuu!! rsrs









